Comportamento humano.
Sem filtro.
Reflexões sobre família, trabalho, liderança e tudo que nos torna humanos. Textos diretos, com base clínica e sem aquela conversa de coach motivacional.
A Criança no Fogo Cruzado
Na terapia familiar, tem uma cena que se repete com frequência assustadora: a criança fala antes dos pais. E o que ela diz, quando finalmente tem espaço para falar, costuma ser a coisa mais honesta da sala.
“Queria passar mais tempo com meu pai. Mas ele trabalha muito.”
Simples assim. Sem rancor, sem acusação. Só uma criança dizendo o que sente. E ali, nessa frase pequena, cabe um problema enorme.
A Criança no Fogo Cruzado
Na terapia familiar, tem uma cena que se repete com frequência assustadora: a criança fala antes dos pais. E o que ela diz, quando finalmente tem espaço para falar, costuma ser a coisa mais honesta da sala.
“Queria passar mais tempo com meu pai. Mas ele trabalha muito.”
Simples assim. Sem rancor, sem acusação. Só uma criança dizendo o que sente. E ali, nessa frase pequena, cabe um problema enorme.
O homem que sustenta. Mas não está.
Existe uma crença muito enraizada na nossa cultura: o homem prova seu amor trabalhando. Quanto mais ele trabalha, mais ele está cumprindo seu papel. É quase uma medalha — “eu faço tudo por vocês” — que ao mesmo tempo justifica a ausência dentro de casa.
O problema é que isso virou muleta.
Trabalhar para sustentar a família é responsabilidade, não heroísmo. E sustentar financeiramente não é o mesmo que estar presente. A criança não quer o salário do pai. Ela quer o pai.
A mulher que quer tudo perfeito. E paga um preço alto por isso.
Do outro lado, há outro padrão igualmente enraizado: a mulher que assume tudo. A casa, os filhos, a escola, o médico, o banco, o jantar, o banho, a lição de casa.
Ela quer tudo do bom e do melhor — e vai atrás disso sozinha. Mas ao assumir tudo, ela também ocupa o espaço do outro. E o outro, sem espaço, se afasta. E ela reclama que ele não ajuda. E ele acha que ela não deixa.
Os dois têm razão. E os dois estão presos no mesmo ciclo.
O que falta não é boa vontade — é alternância. É o nós. Nós trabalhamos. Nós cuidamos. Nós educamos. Nós lavamos. Não “eu cuido disso para sempre” e “você cuida daquilo para sempre” — como se fossem departamentos separados de uma empresa que mal se comunicam.
E no meio disso tudo: a criança.
Coitada da criança.
Ela está ali, no meio do fogo cruzado, querendo apenas uma coisa: ser amada e aceita. Querendo atenção, querendo colo, querendo tempo.
E o que ela recebe? Um celular. Para não encher o saco de ninguém.
Não é julgamento — é exaustão. Os pais estão esgotados, sobrecarregados, cada um carregando um peso que deveria ser dividido. E a criança vira o problema, quando na verdade ela é o sintoma.
Cobranças que nem adulto cumpre.
Aqui vem a parte que mais me provoca.
A gente cobra da criança comportamentos que nós, adultos, não conseguimos ter.
Para de ser teimoso.
Sério? Quando foi a última vez que você largou um vício que sabia que estava te fazendo mal? Quando foi a última vez que alguém te pediu para mudar um hábito e você simplesmente disse “claro, pode deixar” e mudou na hora?
A gente é teimoso. Todo mundo é. É da natureza humana resistir ao que nos desconforta.
Mas esperamos que a criança, ao ouvir “vai tomar banho agora”, responda com um sorriso e diga “claro, querido pai”.
“Se você quer algo obediente, que não bagunça, que não demanda e que não cansa — compra um robô aspirador. É mais barato e não precisa de terapia.”
Ter uma criança real dói. E tudo bem.
Uma criança real bagunça. Questiona. Cansa. Incomoda. Chora sem motivo aparente. Desobedece. Testa os limites porque é exatamente isso que o desenvolvimento dela pede.
Ser criança é isso.
O problema não é a criança ser criança. O problema é quando os adultos ao redor dela não têm estrutura emocional para sustentar isso — porque estão sozinhos demais, sobrecarregados demais, ausentes demais.
A terapia familiar não existe para consertar a criança. Ela existe para olhar para o sistema inteiro. Para o pai que trabalha e some. Para a mãe que assume tudo e esgota. Para o casal que virou sociedade. E para a criança que, no meio de tudo isso, só quer saber se é amada.
Ela é. Mas às vezes precisa de ajuda para sentir isso.